Sarau Chama Poética

Essa, a minha herança, Sem ágio ou usura, Toda: só ternura Que não cessa ou cansa. Antônio Lázaro de Almeida Prado Ciclo das Chamas e outros poemas

1

de
abril

Sarau Chama Poética: Especial Adoniran Barbosa

Adoniran Barbosa - dia 04 de abril às 15h00 no Museu da L�ngua Portuguesa
Sarau Chama Poética: Adoniran Barbosa - dia 04 de abril às 15h00 no Museu da Língua Portuguesa

Programa Sarau Adoniran Barbosa – dia 04 de abril de 2009 
 

1 - Abertura – Fernanda de Almeida Prado e Alex Dias 

2 – Música: Gabriel de Almeida Prado e Irineu de Palmira 

  • Apaga o fogo Mané
  • Joga a chave
  • Prova de Carinho

 

3 – Fernanda de Almeida Prado e Alex Dias 

4 – Música: Neno Miranda 

  • As Mariposas
  • Iracema
  • Conselho de Mulher
  • Mariane (Neno Miranda)
  • Torresmo à Milanesa (com Gabriel de Almeida Prado)

 

5 - Fernanda de Almeida Prado e Alex Dias 

6 – Música: Gabriel de Almeida Prado 

  • Bom dia tristeza
  • Já fui uma brasa (com Irineu de Palmira)

 

7 – Música: Irineu de Palmira 

  • Tiro ao Álvaro
  • Vila Esperança
  • Agüenta a mão João
  • Fica mais um pouco amor
  • Samba do Arnesto

 

8 – Fernanda de Almeida Prado e Alex Dias 

Entrevista com o Ernesto 

9 – Música: Nando Távora 

  • Novo samba do Arnesto

 

10 – Música: Todos juntos 

  • Saudosa Maloca
  • Trem das onze

 

Neste Sarau vamos receber como convidado especial Ernesto Paulelli o Arnesto do Samba do Arnesto que vai nos contar histórias de Adoniran Barbosa e  também receber uma homenagem especial.

 

 

São Paulo, 04 de abril de 2009

 

“Quem sabe de mim é o meu violão”… (coração)

 

Na tarde de 04 de abril de 2009 o Sarau Chama Poética homenageou o cantor e compositor Adoniran Barbosa, ou o João Rubinato, nascido em 06 de agosto de 1910 e filho de imigrantes italianos. O tema do Sarau já anunciava o grande sucesso, afinal, Adoniran Barbosa é um dos raros compositores que atravessam gerações devido a importância e qualidade de sua obra.

 

E, primando sempre pela qualidade, o Chama Poética contou com um time de primeira para abrilhantar o evento. Apresentaram-se os músicos Irineu de Palmira, Neno Miranda, Gabriel de Almeida Prado, e ainda tivemos algumas participações especiais como Lula Barbosa e Nando Távora. As declamações ficaram por conta de Fernanda de Almeida Prado e da atriz Fernanda Conrado. E eu tive o grande privilégio de fazer o papel de Adoniran Barbosa. Mas, me desculpe a imagem saudosa de Adoniran, quem roubou a cena no dia de hoje foi um simpaticíssimo senhor chamado Ernesto Paulelli. Para quem não o conhece, ele tem 94 anos e foi “imortalizado” na canção de Adoniran feita em sua homenagem, o “Samba do Arnesto”.

 

Eu tive a honra de ser escalado para buscá-lo em sua casa, e o compromisso firmado era que eu chegasse lá às 13h45. Desde 12h45 eu estava tentado falar na central do taxi que viria me pegar e me levaria até a casa de Ernesto que fica na Mooca, não mais no Brás, como está na letra de Adoniran. Somente 13h15 o taxi chegou em minha casa no Paraíso. Eu estava, nessa altura do campeonato, bem apreensivo com o horário.

 

Com um trânsito que nem parecia o de São Paulo, fluindo, cheguei 13h41 em frente à casa de Ernesto, toquei a campanhia e fui convidado pelo seu genro a adentrar. Quando entro na sala vejo um senhor descendo as escadas. Era o Ernesto. A emoção daquele momento histórico me tocou profundamente. E de repente, o silêncio foi quebrado pela sua voz rouca, mas muito vivaz: “Quem é esse rapaz?”, ele perguntou, parando no meio da escada. E a sua filha, Valéria, respondeu: “é o ator, papai, que fará o Adoniran e veio nos buscar para irmos ao Museu”.

 

Ernesto puxou a manga de seu casaco para observar a hora no relógio e conferindo, disse: “13h45, muito pontual você. Eu gosto, pois eu nunca me atrasei nessa vida. Eu apostava corrida com os bondes, se fosse preciso, para chegar no horário.” Desceu os últimos lances da escada, me cumprimentou e logo perguntou se já poderíamos ir, demonstrando que ele, de fato, estava ansioso com a homenagem que lhe prestaríamos.

 

Ainda no taxi, durante o percurso de sua casa até o Museu da Língua Portuguesa, eu me deleitei com o aquele simpático novo amigo, generoso e muito lúcido na hora de me revelar as suas histórias de amizade com o Adoniran; e também de, sem reservas, contar-me histórias de sua própria vida. Com certeza este homem merece ser lembrado, não apenas através do “Samba do Arnesto”, mas pela sua própria história de vida. Imaginem o que é uma pessoa aos seus sessenta anos se formar no curso Direito e advogar por mais trinta anos, parando apenas por conta de um AVC. Hoje, contou-me, estuda música, matemática e gramática.

 

Mas como homem predestinado a brilhar que é, quando convidado a sentar-se na mesa durante o Sarau para que pudéssemos apresentá-lo melhor ao público e o deixar  contar algumas de suas histórias, Ernesto Paulelli, ou Arnesto na ocasião, roubou a cena, declamando um trecho na música de Adoniran em sua homenagem e cantando, incansavelmente, praticamente todas as outras músicas do Sarau, acompanhando os demais músicos.

 

Era visível a satisfação nos olhos de Ernesto e a empatia, a catarse, que ele causara no público, conquistando a todos com o seu jeito simples e preciso em se expressar.

 

Mais do que um simples homenageado, seja por Adoniran ou pelo Chama Poética, ali mostrou-se, a quem pôde ver, um grande artista cujos vinte oito anos como  músico em São Paulo deram-lhe o talento de cativar a todos.

 

O Sarau Chama Poética mais uma vez conseguiu superar as expectativas em torno de mais um tema desenvolvido e presenteou muitas pessoas com um momento mágico, da arte cumprindo a sua função transformadora  de “tocar”, “chegar” ao outro. E para Ernesto, que conviveu com Adoniran e conhece as suas canções como ninguém, ele pôde apreciar como jovens artistas, como os músicos Neno Miranda e Gabriel de Almeida Prado, interpretam com uma roupagem nova as canções de Adoniran. O que prova que a boa música perdura e sempre se renova através dos tempos. Ernesto Paulelli recebeu do músico Nando Távora uma nova canção em sua homenagem e, enquanto o Nando a tocava apertou o meu braço e disse: “olha Adoniran, eu queria saber cantar essa letra toda, mas por enquanto eu só arrisco o refrão”.

 

Agora, se os fãs de Adoniran sentem falta de que eu fale dele, não é preciso muito. Não fosse ele, esse dia especial não existiria. E toda a festa que fizemos em sua homenagem tornou-se, na verdade, um presente para mim, e creio que para todos que estiveram presentes. Adoniran, o grande intelectual do povo, da língua falada e entendida pelo povo, do simples ao mais erudito. Adoniran, mais que do que um dos maiores compositores da MPB, um lapidador das preciosidades da realidade paulistana. Eu te saúdo e o deixo como um pavio acesso do lampião de minha alma, povoando o meu coração de samba. “Quem sabe de mim é o meu  violão… (coração)”.

 

Alex Dias

Ator e Poeta

http://alexwdias.blogspot.com/

 

28

de
janeiro

Sarau Chama Poética - Paulo Vanzolini

Fotos:  Maria Rita Aguiar

Fernanda de Almeida Prado, Alex Dias e Rita Alves

Fernanda de Almeida Prado, Alex Dias e Rita Alves

O cravo branco...

O cravo branco...

Fernanda de Almeida Prado, Paulo Vanzolini e sua esposa

Fernanda de Almeida Prado, Paulo Vanzolini e sua esposa

Carmen Queiroz

Carmen Queiroz

17

de
dezembro

Fotos - Sarau Noel Rosa

Alex Dias

Alex Dias

Fernanda Conrado

Fernanda Conrado

Vânia Lucas

Vânia Lucas

17

de
dezembro

Fotos - Sarau Noel Rosa

Alex Dias

Alex Dias

Guca Domenico

Miriam Samorano

Miriam Samorano

Mário Feres e Vânia Lucas

Mário Feres e Vânia Lucas

Deni Domenico

Deni Domenico

Fernanda Almeida Prado, Rita Alves e Alex Dias

Fernanda Almeida Prado, Rita Alves e Alex Dias

1

de
dezembro

Poemas SARAU ANCESTRALIDADES

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Poemas declamados por Fernanda Almeida Prado

 

Fotos: Maria Rita Aguiar

Oração da causa indígena
Pai-Mãe da Terra e da Vida,
Deus Tupã de nossos pais e mães,
Venerado nas selvas e nos rios,
No silêncio da lua e no grito do sol:
Pelos altares e pelas vidas destruídas
Em teu nome, profanado,
Nesta nossa Abia Yala colonizada,
Te pedimos que fortaleças
A luta e a esperança dos povos indígenas

Na reconquista de suas terras,
Na vivência da própria cultura,
Na fruição da autonomia livre.
E dá-nos (a nós, neocolonizadores)
Vergonha na cara e amor no coração
Para respeitarmos esses povos-raiz
E para comungar com eles em plural Eucaristia.
Awere, Amém, Aleluia!

de Dom Pedro Casaldáliga
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O Rosto

Aquele rosto nativo
Tão desfigurado
Barba, cabelo
Chinelo de dedo
Suor e cachaça
O que me corroeu
Não foi o bafo
Mas o que corroía ele por dentro.
A fome não tem nome
E o abandono faz o homem anônimo
Aquele não era um qualquer
Um dia ele e a sua gente foram os donos

Da Terra Santa, Ilha de Vera Cruz
E agora, ali parado
Mendiga
Um prato de comida
Eu, paralisado,
Nenhuma mísera folha de papel
Se dignaria a registrar a minha indignação.

Antônio de Araújo

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Mistura Boa

Há tempos eu era.
Há pouco tempo eu sou.
No espaço de quem eu era
E de quem eu sou
Descobrir as interfaces
Da pigmentação desta pele humana e frágil.
Trago em minha cara
As marcas das lágrimas
Que ganhei ao nascer desta cor.
Sou a mistura
Bruta e clara
Da ginga, da alma, do batuque
De tanta gente, de tanto sangue,
de tanta luta, de tanta dor.
Sou chamada de morena, preta,
amorenada, quase clara.
Ou cochicham à surdina: negra assanhada!
Sou mestiça, obrigada a dizer:
Sim, senhor!
Nesta terra das misturas,
E tão impune
A senzala é ocupada por todas as cores.
Agora, face a face
Sem buscar disfarce
Vejo-me grande e bela
E de toda cor.

Luciane
por correio eletrônico
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Mãe África

Com certeza, fostes o berço da humanidade,
Em minhas veias, ainda corre o teu sangue.
Teus filhos foram arrancados com maldades
E ainda o teu rico solo é regado com sangue.

Tuas raízes históricas são ricas e milenares,
Da humanidade, és patrimônio rico e natural,
Pelas tuas diversidades culturais e valores,
Há a cobiça do capitalismo descomunal.

És negra e original na riqueza da tua pele,
E os teus filhos ainda lutam pela liberdade,
Repudiando o capitalismo sujo da maldade.

Mãe negra, dividida e palco de exploração,
És rica não precisando de ofertas e esmolas,
Por direito e justiça é necessário reparação.

de Everaldo Cerqueira
Salvador - BA - por correio eletrônico

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Quem não sabe de ajuda

Como pode a voz que vem das casas ser a da justiça
Se os pátios estão desabrigados?
Como pode não ser um embusteiro
Aquele que ensina os famintos outra coisa
Que não a maneira de abolir a fome?
Quem não dá o pão ao faminto quer a violência
Quem na canoa não tem lugar para os que se afogam
Não tem compaixão.
Quem não sabe de ajuda, que cale!

Bertold Brecht
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Se queres a paz…

Se queres a paz… Defende a vida!
Se queres a paz… Luta pela justiça!
Se queres a paz… Trabalha pela paz!
Se queres a paz… Educa para a paz!
Se queres a paz… Defende os direitos humanos,
Teus e de outros seres humanos também!

Luiz Péres Aguirre

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1

de
dezembro

Poema declamado por Alex Dias

 

Fotos: Maria Rita Aguiar

Sou Negro porque encaro minhas origens

Não precisa ter cor, nem raça, nem etnia.
É preciso amar
É preciso respeitar
Não sou negro porque minha pele é negra
Não sou negro porque tenho cabelo embolado de “pixain”
Não sou negro porque danço a capoeira
Não sou negro porque vivo África
Não sou negro porque canto reggae.
No sou negro porque tenho o candomblé como minha religião
Não sou negro porque tenho Zumbi como um dos mártires da nossa raça.
Não sou negro porque grito por liberdade
Não sou negro porque declamo Navio Negreiro
Não sou negro porque gosto das músicas de Edson Gomes,
Margareth Menezes ou Cidade Negra.
Não sou negro porque venho do gueto.
Não sou negro porque defendo as idéias e Nelson Mandela
Não sou negro porque conheço os rituais afro.
Sou negro porque sou filho da natureza
Tenho o direito de ser livre.
Sou negro porque sei encarar e reconhecer as minhas origens.
Sou negro porque sou cidadão.
Porque sou gente.
Sou negro porque sou lágrimas
Sou negro porque sou água e pedra.
Sou negro porque amo e sou amado
Sou negro porque sou palco, mas também sou platéia.
Sou negro porque meu coração se aperta
Desperta,
Deseja,
Peleja por liberdade.
Sou negro na igualdade do ser
Para o bem à nossa nação.
Porque acredito no valor de ser livre
Porque acredito na força do meu sangue numa canção que jamais será calada.
Sou negro porque a minha energia vem do meu coração.
E a minha alma jamais se entrega não.
Sou negro porque a noite sempre virá antecedendo o alvorecer de um novo dia.
Acreditando num povo afro-descendente que ACORDA, LEVANTA E LUTA.

de Genivaldo Pereira dos Santos

 

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1

de
dezembro

Poemas SARAU ANCESTRALIDADES

Poemas declamados Por Rita Alves

 

Fotos: Maria Rita Aguiar

UM ÍNDIO

(Caetano Veloso)

Um índio descerá de uma estrela colorida brilhante

De uma estrela que virá numa velocidade estonteante

E pousará no coração do hemisfério sul, na América,

Num claro instante

Depois de exterminada a última nação indígena

E o espírito dos pássaros, das fontes de água límpida

Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas

Das tecnologias

Um índio preservado em pleno corpo físico

Em todo sólido, todo gás e todo líquido.

Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto, em cheiro, em sombra, em luz,

Em som magnífico

Num ponto eqüidistante entre o atlântico e o pacífico

Do objeto sim resplandecente descerá o índio

E as coisas que eu sei que ele dirá, fará

Não sei dizer assim de um modo explícito

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos

Surpreenderá a todos não por ser exótico

Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio.

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Língua Caetano Veloso

Gosta de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”

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CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA

Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que nesta navegação agora se achou, não deixarei também de dar minha conta disso a Vossa Alteza, o melhor que eu puder, ainda que para o bem contar e falar, o saiba fazer pior que todos.

Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para alindar nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.

Da marinhagem e singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o não saberei fazer, e os pilotos devem ter esse cuidado. Portanto, Senhor, do que hei de falar começo e digo:

Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijamente sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.

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PORTUGAL
(Rita Alves)

Foi meu bem, foi meu mal

Estar entre as cerejas e as lendas da figueira.

Cantei as uvas na colheita,

Dos vinhos bebi meu sobejo,

Entre tronos vazios, encontrei as lágrimas

Da menina que perdeu os anéis.

Vivi a saudade

Entre as margens do rio, a vagar nas minhas lembranças.

Eu, fruto de um garimpo bruto,

Sou o resultado de um depósito de culturas

Um passo para o oriente,

Um veio no ocidente,

Uso o idioma dos deuses.

Filha de Ulisses e Ceci,

Entre o Português e o Guarani,

Entre Pessoa e todos os Andrades,

Nasço como um novo ramo:

Árvore do bem, fruto do mal,

Entre a Grécia, Amazônia, Portugal,

Teço meu linho branco

Retiro toda aspereza

De uma longa história real,

Brasil, longe ou perto,

Entre uvas, bananas, fado, carnaval,

Teço minha pátria:

A Língua Portuguesa.

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Mumuru – a estrela dos lagos
(Walde-Mar Andrade – Pintor, antropólogo e Diretor do Museu do Índio)

Maraí, uma jovem e bela índia, muito amava a natureza. À noite, ficava a contemplar a chegada da Lua e das estrelas. Nasceu-lhe, então, um forte desejo de tornar-se uma estrela. Perguntou ao pai como surgiam aqueles pontinhos brilhantes no céu e, com grande alegria, veio a saber que Jacy, a Lua, ouvia os desejos das moças e, ao se esconder atrás das montanhas, transformava-as em estrelas. Muitos dias se passaram sem que a jovem realizasse seu sonho. Resolveu então aguardar a chegada da Lua junto aos peixes do lago. Assim que esta apareceu, Maraí encantou-se com sua imagem refletida na água, sendo atraída para dentro do lago, de onde não mais voltou. A pedido dos peixes, pássaros e outros animais, Maraí não foi levada para o céu. Jacy transformou-a numa bela planta, ganhando o nome de Mumuru, a vitória-régia.

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1

de
dezembro

Poema declamado por Fernanda Conrado

 Fotos: Maria Rita Aguiar

Ressurgir das cinzas

Sou forte, sou guerreira,
tenho nas veias sangue de ancestrais.
Levo a vida num ritmo de poema-canção,
mesmo que haja versos assimétricos,
mesmo que rabisquem, às vezes,
a poesia do meu ser,
mesmo assim, tenho este mantra em meu coração:
"nunca me verás caído ao chão".

Sou destemida,
herança de ancestrais,
não haja linha invisível entre nós
meus passos e espaços estão contidos
num infinito tonel,
mesmo tendo na lembrança jovens e parentes que, diante da batalha deixaram a talha
da vida se quebrar,
mesmo tendo saudade cultivada no portão.
Mesmo assim, tenho este mantra em meu coração:
"nunca me verás caída ao chão" .

Sou guerreira como Luiza Mahin,
Sou inteligente como Lélia Gonzáles,
Sou entusiasta como Carolina de Jesus,
Sou contemporânea como Firmina dos Reis
Sou herança de tantas outras ancestrais.
E, com isso, despertem ciúmes daqui e de lá,
mesmo com seus falsos poderes tentem me aniquilar,
mesmo que aos pés de Ogum coloquem espada da injustiça
mesmo assim tenho este mantra eu meu coração:
"Nunca me verás caída ao chão".

Sou da labuta, sou de luta,
herança dos ancestrais,
trabalhar, trabalhar, trabalhar,
mesmo que nos novos tempos irmãos seduzidos
pelo sucesso vil me traiam, nos traiam como judas
sob a mesa,
meu, ganha-pão.
Mesmo que esses irmãos finjam que não nos vêem,
estarei ali ou onde estiver, estarei de corpo ereto,
inteira,
pronunciando versos e eles versando sobre o poder,
mesmo assim tenho esse mantra em meu coração
"nunca me verás caída ao chão".
Me abraço todos os dias,
me beijo,
me faço carinho, digo que me amo, enfim,
sou vaidosa espiritual,
mesmo com mágoas sedimentadas no peito,
mesmo que riam da minha cara ou tirem sarro do meu jeito,
mesmo assim tenho esse mantra em meu coração:
"Nunca me verás caída ao chão".
Me fortaleço com os ancestrais,
me fortaleço nos braços dos Erês.
podem pensar que me verão caída ao chão,
saibam que me levantarei
não há poeiras para quem cultua seus ancestrais,
mesmo estando num beco sem saída, levada por um mar de águas,
mesmo que minha vida vire uma maré,
vire tempestade, sei que vai passar.
Porque são meus ancestrais que se reúnem num ritual secreto
para me levantar.
Eu darei a volta por cima e estarei em pé, coluna ereta,
cheia de esperança, cheia de poesia e com muito
axé
por isso, desista,
tenho este mantra em meu coração:
"nunca me verás caída ao chão.

Esmeralda Ribeiro. Cadernos negros,vol 27:poemas afro-brasileiros.São Paulo:quilombhoje,2004.

1

de
dezembro

Sarau Chama Poética com o tema: Ancestralidades

 

Poema Ancestral*

Lembra os dias antigos
Em que cantavas a pureza
Na nudez dos teus passos e gestos
Ou dançavas na inocente vaidade
Ao som dos «babadok».
Relembra as trevas da tua inquietação
E o silêncio das tuas expectativas,
As chuvas, as memórias heróicas,
Os milagres telúricos,
Os fantasmas e os temores.
Tenta lembrar a herança milenar dos teus avós
Traduzida em sabedoria
E verdade de todos.
Recorda a festa das colheitas,
A harmonia dos teus Ritos,
A lição antiga da liberdade,
Filha da natureza.
Recorda a tua fé guerreira,
A lealdade,
E a ternura do teu lar sem limites,
Nos caminhos do inesperado
Ou no improviso da partilha definitiva.
Lembra pela última vez
Que a história da tua ancestralidade
É a história da tua Terra Mãe…

*Custódio T. Araújo*
*(poeta timorense.)

 

POEMA ASSANHADO de AMOR*

Já sinto
teu cheiro de gata sem coleira,
castidade ou cinto
em "telhado de zinco quente"
se lambendo
se mordiscando
plena de tesura,
ansiedade da espera,
do teu gato, gatão,
muá, je, eu
que ainda não gemeu.

Gato que não dá miado
nem mia rouco,
tão pouco.

Porque não é bem gato
é tigróide no cio
que não lambe prato
só rosna no mato
da sua tigreza
cheia de natureza
amor, sexo e beleza
do beijo rosnado
no corpo amado
se elevando das miudezas
em glória nas alturas
cheios de dia-pasõn
em todas as cordas!

Total transmutatiõne!!

Oitavas no sétimo, kundalini
dedilhadas al dentinho
no violon da amada
neurónios nervudos esticados
no amplexo da entrega
ao domicílio de eros,
com cama sem sutra,
sem regra sem ama!

Pura émotion, agradável.
Amor, fina na mente!

*João Craveirinha*
*( Poeta, contista e artista plástico moçambicano; Nyamesoro Néngue wa (in) Suna (Feiticeiro Perna de Mosquito), Lisboa, 4 Julho 2008)

NEGRO:
SER OU NÃO SER
NÃO É A QUESTÃO!
(é tudo imposição)*

Queres que eu seja negro
da cor da noite das trevas?
Então sou!
E depois não digas que a mulher negra não é bela.
É tão bela como pode ser a tua mulher
que dizes ser, da cor da luz branca,
onde vive o divino!
Sou negro e depois?

Ah, não!!

Agora sou racista por aceitar com um sorriso
o que me impões e aceito,
e te devolvo?
Só quero igualdade.
Nada mais!

*João Craveirinha*
*( Poeta, contista e artista plástico moçambicano)

Poema para uma namorada que inventei

Hoje quero
celebrar tua ausência
o teu silêncio.

exaltar a tua solidão
e com ela
partilhar
o doce aroma de pitanga madura
dos teus beijos ausentes.

Como se fosses um sonho,
Um poema sem fundamento
Ou apenas imagem que criei.

Manuel C. Amor

Força do amor
Chegas na fragrância das macieiras em flor,
No pipilar dos pássaros andorinha
ancestrais arautos da tua chegada.

Chegas com a felicidade estampada
no brancoamarelo dos malmequeres silvestres.

Chegas e contigo chegam
as manhãs sorridentes
as esperanças renascidas.

http://www.lusofoniapoetica.com/index.php/content/view/44/306/

ANCESTRAIS
Meus antepassados vieram da Mumbuca
Os pés negros sobre o pó das estradas
As mãos negras traziam farinha e beijus

Ainda hoje sinto em mim
Os pés sujos de poeira
E o rosto coberto de suor dos meus ancestrais

Cláudio Bento

RAÍZES…

Agenor · Aquidauana (MS)

O sangue rubro que corre em minhas veias
É herança das velhas gerações africanas,
Negróides tribos habitantes das aldeias
Das planícies togolesas e quenianas.

Há no meu olhar, que as vezes se inflama,
No pranto oculto que minh’alma chora,
A mesma dor que aflige meu irmão de Gana,
O mesmo sonho do meu irmão de Angola.

África! Terra mãe dos meus ancestrais,
Berço que embalou os sonhos dos meus pais
Onde, um dia, viveram livres e felizes…

A ti meu eterno preito de gratidão,
Pois, nas profundezas do teu negro chão,
Estão fincadas as minhas negras raízes!…

1

de
dezembro

Músicos que se apresentaram

Fotos: Maria Rita Aguiar


Grupo A 4 vozes
(Dora, Jussara, Jurema e Thatiana)


Xande Mello, Neide Nell, Eduardo Pitta e Maria Rita Gullo

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