Sarau Chama Poética

Essa, a minha herança, Sem ágio ou usura, Toda: só ternura Que não cessa ou cansa. Antônio Lázaro de Almeida Prado Ciclo das Chamas e outros poemas

26

de
novembro

PRESENÇA DO POETA AGUINALDO DE BASTOS

DIA 22 DE NOVEMBRO - MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA

NEGRA MÃE 

 (Rita Alves)

- Dá, dá o peito preta.
Engorda este menino branco,
não demora, que a lida te espera.

Anda, preta, peleja!
Amamenta, o menino chora!

- A negra acomoda o menino
ao quente do colo
salta a teta grande
o leite branco jorra!
O menino cola a boquinha no seu peito.

Lá fora o negrinho espia pela janela,
lágrima presa na garganta:
- “mãe, tenho fome também…”

Enquanto estende a mãozinha à palmatória!

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Fernanda de Almeida Prado, Guca Domenico, Aguinaldo de Bastos, Rita Alves e Yolanda de Bastos

 

Rita Alves e Guca Domenico declamam poemas de Aguinaldo de Bastos

A SENZALA

(declamado por Rita Alves)

 

Eis o casarão a que chamam senzala.

Janelas estreitas, aspecto sombrio,

quem mora lá dentro por certo não fala…

É quieto e tristonho o infeliz casario.

 

Paredes escuras, soturno telhado.

São largos e toscos seus feios portais.

Comentam que aquele lugar é habitado

por vultos estranhos que sofrem demais…

 

Canções langorosas, sentidas palavras,

à noite eles cantam enquanto uma dança

dançada com graça por jovens escravas,

distrai os que vivem sem ter esperança.

 

A música é triste, infeliz e marcante,

e cantam-na aqui quando dói a saudade

do bem que perderam na pátria distante,

oh Deus! o seu único bem! Liberdade!

 

O ENGENHO

(declamado por Guca Domenico)

 

Ao sol do Brasil,

reluzente o semblante,

açoitado por mãos impiedosas,

o negro espera que o sol de algum céu

se levante

e venha aquecer-lhe as mãos frias,

calosas!…

 

Volteia o engenho

puxando correntes,

moendo… moendo…

Se ali ele fala,

se à boca lhe foge um gemido

às ingetes torturas,

no rosto o chicote lhe estala!…

 

Volteia o engenho

puxando correntes,

moendo…moendo…

moendo…moendo…

puxando correntes…

moendo…

moendo…

moendo…

moen…do…

 

MERCADO DE NEGROS

(declamado por Rita Alves e Guca Domenico)

 

Ninguém saberá o que o negro sentiu

ao ver-se, afinal, nesta terra bendita,

a terra do índio valente, bravio,

que verga a palmeira com força inaudita.

 

As noites daqui lembram bem sua terra

coberta de beijos, de beijos de prata

que descem, da lua escondida na serra,

aos troncos que dormem no seio da mata.

 

À pobre criança dormindo na rede,

que a mãe carinhosa cantando cantigas

embala sorrindo, a fitar a parede

batida de barro, trançada de vigas.

 

O negro se lembra, quando era menino

corria na selva, nadava nos rios

e, ao sol africano de raios a pino,

remava nas ondas de mares bravios.

 

Gostava do rio, do mar, da jangada.

Sentia-se livre como ave no espaço,

feliz, sem algemas, sem peias, sem nada

que fosse capaz de tolher o seu passo.

 

Os beijos de prata que vinham da serra

um dia tornaram-se beijos de sangue!

O negro lutou como um tigre, era a guerra,

mas preso e vencido o levaram exangue.

 

Oh Deus! Melhor fora tivesse morrido

na luta em que todo e seu povo foi morto

mas nunca, jamais ser por homens vencido

e a vis traficantes entregue num porto.

 

 

23

de
novembro

Poema declamado por Raphael Galvano

 

Poema declamado por Raphael Galvano./Fernanda de Almeida Prado/Rita Alves

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Uma Nação Capoeira

Fui rebatizado
Longe da pia batismal,
Os pés descalços
Misturados à cor do barro,
Contrastada pelo branco cordão
Que trago na cintura atado,
Para não me perder,
Acho…
Para não voar,
Talvez…
Ao som mágico desse berimbau.

Chamaram-me
"Doutor" capoeira,
Mais um "galego" negro,
Pele alva salva do preconceito.
Mas e teus olhos claros?
Indagariam uns desavisados.
São meros reflexos
Do céu de mama África,
Mas são também do mar
Que nos separa e ata,
Numa grande roda
Brasileira, Portuguesa, Africana, Asiática…
Humana roda.

E o que cantavam nesse batizado?
Que igualdade é irmã de liberdade!
E a isso também dançavam,
A toda cultura que nos difere,
Mas não separa
E nem segrega,
Une.
Capoeira que se espalha e ata.
Mas foi "Tiú" o padre,
Ou foi "Preto" o frade desse batizado?
Foram apenas o berimbau e o atabaque!
"Berimbau…Berimbau…
Berimba…Berimba…Berimbau…"

Fomos excluídos da "Senzala".
Bobagem! Sempre fomos excluídos.
Não carecemos de mais senzalas,
Àquela nunca foi a nossa casa.
Somos agora os sem "Senzala",
Tomaram de volta o nome emprestado,
Mas nada mais levaram,
Deixaram obstinada capoeira
Onde se rir do preconceito,
Que às vezes também é preto.
E se ainda não sei jogar direito,
Descobri que todos nascemos capoeira.

Nesta nossa roda,
Agora sem "Senzala",
Joga-se desde o abraço da chegada,
Dança-se na divisão do que nos falta,
E por aquilo que dividimos lutamos,
Girando uma roda solidária,
Para quando formos embora
Deixarmos noutro abraço,
Que nos separa e ata,
Reafirmado o tratado da luta
De Uma Nação Capoeira,
Maior que qualquer "Senzala".

Silvaney Paes

23

de
novembro

Poemas declamados por Fernanda e Rita Alves

"Eu canto na guerra,/ Como cantei na paz, /Pois o meu poema/ É Universal./ É o homem que sofre,/O homem que geme, / É o lamento / Do povo oprimido,/ Da gente sem pão…/ É o gemido/ De todas as raças, / De todos os homens / É o poema / Da multidão!"

Solano Trindade

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O CANTO DA LIBERDADE

Solano Trindade

Ouço um novo canto,
Que sai da boca,
de todas as raças,
Com infinidade de ritmos…
Canto que faz dançar,
Todos os corpos,
De formas,
E coloridos diferentes…
Canto que faz vibrar,
Todas as almas,
De crenças,
E idealismos desiguais…
É o canto da liberdade,
Que está penetrando,
Em todos os ouvidos…

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SOU NEGRO

Solano Trindade

Sou Negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh’alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso

Mesmo vovó não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou

Na minh’alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação…

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Canta América

Solano Trindade

Não o canto de mentira e falsidade
que a ilusão ariana
cantou para o mundo
na conquista do ouro
nem o canto da supremacia dos derramadores de sangue
das utópicas novas ordens
de napoleônicas conquistas
mas o canto da liberdade dos povos
e do direito do trabalhador…

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Primeiro levaram os negros

"Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
.
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
.
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
.
Depois agarraram uns desempregados
Também não me importei
.
Agora estão me levando
Mas já é tarde
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo."
.
Bertolt Brecht (Poemas sobre liberdade)

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Negritude Feminina

Os elos de ferro que prendiam meus pés e minhas mãos

para que os senhores brancos dispusessem da minha vida,

tornaram-se palavras e ações que hoje prendem meu coração

na tentativa de escravizar

os meus sentimentos,

o meu modo de pensar,

a minha cultura,

a minha crença

e o meu ideal.

A memória das minhas origens

não se perdeu no infinito do passado

mas navega o mar do tempo

e aporta no berço da minha raça: a África,

continente retalhado pela ganância da branca Europa.

Meus homens:

pais,

filhos,

irmãos,

maridos

ainda acorrentados,

são proibidos de transpor os portais da casa grande

da vida digna de igualdade e respeito.

Minha dor ainda mora na senzala dos preconceitos

e está presa ao pelourinho onde sinto as chibatadas

quando luto pela sobrevivência da liberdade dos meus direitos.

Mas tenho que romper todos os elos das correntes

visíveis e invisíveis.

Que as minhas lágrimas, que se arrastam na solidão do meu peito,

sejam os últimos elos desta corrente que me prende

à moderna escravidão,

para que os meus filhos nasçam de um ventre livre.

Verdadeiramente livre.

Gildes Bezerra

Do livro “Recantares”.
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23

de
novembro

Poemas declamados por Cássio Junqueira

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Ser doce é como o rio,
que leva para o mar,
dos braços de Oxum
pros de Yemanjá…

O mar é um mistério
que dá medo de pensar!
Mas toda água doce
deságua lá no mar…

Saudade é como o rio,
que corre para o mar,
as águas de Oxum
pras de Yemanjá…

O amor é como o mar…
que dá medo de pensar!
Amar é se entregar
à incerteza que há no mar.

O mar é um mistério
que dá medo de pensar!
É o destino que tem o rio…
o da gente é sempre amar…

pois toda água doce
deságua lá no mar…
as águas de Oxum
nas de Yemanjá.

(Oxum e Yemanjá - Cássio Junqueira)

***

Senhora das tempestades,
Dos raios e dos vendavais,
Senhora da eletricidade.

Senhora das águas doces,
Dos córregos e dos riachos,
Senhora da mansidão.

Senhora das algas marinhas,
Dos peixes e dos mistérios,
Conceda-me a intimidade.

Senhoras da minha vida,
Senhoras da minha morte,
Senhoras da minha sorte,

Da minha proteção.

(Senhoras da minha vida - Cássio Junqueira)

23

de
novembro

Poemas declamados por Alex Dias

ENCONTREI MINHAS ORIGENS

Encontrei minhas origens
em velhos arquivos
……. livros
encontrei
em malditos objetos
troncos e grilhetas
encontrei minhas origens
no leste
no mar em imundos tumbeiros
encontrei
em doces palavras
…… cantos
em furiosos tambores
……. ritos
encontrei minhas origens
na cor de minha pele
nos lanhos de minha alma
em mim
em minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei
encontrei-as enfim
me encontrei

Oliveira Silveira
Roteiro dos Tantãs
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Lá vem o navio negreiro
Cheio de melancolia
Lá vem o navio negreiro
Cheinho de poesia…

Lá vem o navio negreiro
Com carga de resistência
Lá vem o navio negreiro
Cheinho de inteligência

Solano Trindade

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Ai da tristeza de meu corpo, ai,
o pássaro conhece a manhã,
e sabe que é branca a manhã,
mas não ousa enterrar-se de novo
na noite…

A manhã se espalha nos quintais
e a flauta matutina do pastor
faz desenhos no ar…

Eu, no entanto, permaneço ao lado
da manhã e das cantigas…
A noite, a grande noite, está pousada em mim
escandalosamente!

Oswaldo de Camargo

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Dois e dois são quatro
Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena
Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
[E a lagoa, serena
Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena
- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.

Ferreira Gullar

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"Canção para um negro abandonado"

Juntaremos tantos grilhões
Quanto for possível
E mais quatrocentas misérias
Então trocaremos tudo por flores
Para enfeitar o enterro
Dessa coisa estranha: racismo

Ele Semog

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Eu me sinto grimpado no arco da Ponte das Bandeiras, Bardo mestiço, e meu verso vence a corda Da caninana sagrada, e afina com os ventos dos ares, e [enrouquece Úmido nas espumas das águas do meu rio E se espatifa nas dedilhações brutas do incorpóreo [Amor

Mário de Andrade

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Meu avo era noite escura

Minha mae nasceu fim de tarde estrelada

Eu ja nasci cor de tarde

Meus filhos, dependendo a mistura,

Hao de nascer noite escura,

Fim de tarde estrelada

Pôr de sol avermelhado

Céu um pouco amarelado

Ou meio dia claro.

O mais importante,

É que preservem esse amor

à vida, esse orgulho de raca mestica;

que, no Brasil, os únicos puros

sao os que amam o que sao.

Alex Dias

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"Negro preto cor da noite",
Nunca te esqueças do açoite
que cruciou tua raça.

Em nome dela somente
faze com que nossa gente
um dia gente se faça!

Negro preto, negro preto
sê tu um homem direito
como um cordel posto a prumo!

É só do teu proceder
que por certo há de nascer
a estrela do novo rumo!

Abdias Nascimento

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Mas irmão, fica sabendo
Piedade não é o que eu quero
Piedade não me interessa
Os fracos pedem piedade
Eu quero coisa melhor
Eu não quero mais viver
No porão da sociedade
Não quero ser marginal
Quero entrar em toda a parte
Quero ser bem recebido
Basta de humilhações
Minha alma já está cansada
Eu quero o sol que é de todos
Ou alcanço tudo o que eu quero
Ou gritarei a noite inteira
Como gritam os vulcões
Como gritam os vendavais
Como grita o mar
E nem a morte terá força
Para me fazer calar!

Carlos Assumpção

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VÔO

Quando você acreditar

Que é livre e pode

Empreender o vôo da realidade

Procure não pensar

Nas correntes da consciência.

( Limeira, 1978)

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22

de
novembro

Sarau com o tema: Cada Homem é uma raça

Dia 22 de novembro de 2008 às 15 horas

Museu da Língua Portuguesa

22

de
novembro

SARAU PALAVRA DE MULHER

Fernanda de Almeida Prado/Guca Domenico/Rita Alves

dia 15 de novembro de 2008…Museu da Língua Portuguesa

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A Fúria da Beleza

"Estupidamente bela
a beleza dessa maria-sem-vergonha rosa
soca meu peito essa manhã!
Estupendamente funda,
a beleza, quando é linda demais,
dá uma imagem feita só de sensações,
de modo que, apesar de não se ter a consciência desse todo,
naquele instante não nos falta nada.
É um pá. Um tapa. Um golpe.
Um bote que nos paralisa, organiza,
dispersa, conecta e completa!
Estonteantemente linda
a beleza doeu profundo no peito essa manhã.
Doeu tanto que eu dei de chorar,
por causa de uma flor comum e misteriosa do caminho.
Uma delicada flor ordinária,
brotada da trivialidade do mato,
nascida do varejo da natureza,
me deu espanto!
Me tirou a roupa, o rumo, o prumo
e me pôs a mesa…
é a porrada da beleza!
Eu dei de chorar de uma alegria funda,
quase tristeza.

Acontece às vezes e não avisa.
A coisa estarrece e abre-se um portal.
É uma dobradura do real, uma dimensão dele,
uma mágica à queima-roupa sem truque nenhum.
Porque é real.
Doeu a flor em mim tanto e com tanta força
que eu dei de soluçar!
O esplendor do que vi era pancada,
era baque e era bonito demais!

Penso, às vezes, que vivo para esse momento
indefinido, sagrado, material, cósmico,
quase molecular.
Posto que é mistério,
descrevê-lo exato perambula ermo
dentro da palavra impronunciável.
Sei que é dessa flechada de luz
que nasce o acontecimento poético.

Poesia é quando a iluminação zureta,
bela e furiosa desse espanto
se transforma em palavra!
A florzinha distraída
existindo singela na rua paralelepípeda esta manhã,
doeu profundo como se passasse do ponto.
Como aquele ponto de gozo,
como aquele ápice do prazer
que a gente pensa que vai até morrer!
Como aquele máximo indivisível,
que, de tão bom, é bom de doer,
aquele momento em que a gente pede pára
querendo e não podendo mais querer,
porque mais do que aquilo
não se agüenta mais,
sabe como é?

Violenta, às vezes, de tão bela, a beleza é!"

(Elisa Lucinda- A Fúria da Beleza. 2006)

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21

de
novembro

Poemas SARAU PALAVRA DE MULHER

 

 

Poemas declamados por Miriam Samorano e Fernanda de Almeida Prado

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"Já não temo fantasmas
invoco a todos
que venham em bando
povoar meus dias
atormentar minhas noites
entre tantos
loucos e livres
existe um
que é doce
e que me
falta."

Alice Ruiz
……………………………………………………………………………………………………………………

na esquina da consolação
com a paulista
me perdi de vista
virei artista
equilibrista
meio mãe
meio menina
meio meia-noite
meio inteira
inteiramente alheia
toda lua cheia.

Alice Ruiz

……………………………………………………………………………………………………………………

ENSINAMENTO
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

Adélia Prado

……………………………………………………………………………………………………………………..

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado

 

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21

de
novembro

Poemas Sarau Palavra de Mulher

Fotos: Maria Rita Aguiar

 

 

 

 

 

 

Poemas declamados por Fernanda de Almeida Prado e  Rita Alves

 

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MARIA PROFETIZA

Sua amável sabedoria

faz bem às flores

aos pássaros

faz bem ao meu coração.

Nem sempre olhar verde

e penetrante

põe nuvens no semblante:

Maria Profetiza conhece todas as plantas

remédios para a melancolia.

Tomamos chá sob as árvores -

ela me ensina

a cerimônia do chá

e o sabor do dia.

Dora Ferreira da Silva

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Minha alma é um bolso onde guardo minhas memórias vivas. Memórias vivas são aquelas que continuam presentes no corpo. Uma vez lembradas, o corpo ri, chora, comove-se, dança… "O que a memória amou fica eterno"

Adélia Prado.

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Aflição de ser eu e não ser outra.

Hilda Hilst

Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

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Saudade é um pouco como fome.
Só passa quando se come a presença.
Mas às vezes a saudade é tão profunda
que a presença é pouco:
quer-se absorver a outra pessoa toda.
Essa vontade de um ser o outro
para uma unificação inteira
é um dos sentimentos mais urgentes
que se tem na vida.

(Clarice Lispector)


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21

de
novembro

Poemas Sarau: Palavra de Mulher

O convite…

Poemas de Cecília Meireles declamados por Fernanda de Almeida Prado e Miriam Samorano

 

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Sais pelo sonho como de um casulo e voas.

Com tal leveza podes percorrer o mapa
e ir e vir ao acaso, ar e nome:
como as borboletas.

Não és tu, mas a tua memória com asas.

E abrem-se os palácios,
e percorres os tesouros guardados,
e és sorriso e silêncio
e já nem precisas mais de asas.

Na noite encontras o dia, claro e durável.
Voas sobre séculos e horóscopos.
Ouves dizer que te amam
como ninguém jamais o poderia confessar.

Não tens idade nem tribo,
nem rosto nem profissão.
Podes fazer o que quiseres com palavras, harpas, almas.

E quando voltas ao teu casulo
já não tens medo nenhum da morte
e em teu pensamento há néctar e pólen.

Cecília Meirelles
Outubro 1962

de “Solombra” / 1963
***********************

 

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…

e um dia me acabarei.

Cecília Meireles

…………………………………………………………………………………………………………..

Tu Tens um Medo
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo…

Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos…
Enganados…
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor…
… E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

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Reinvenção

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo… — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço…
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Cecília Meireles

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Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Cecília Meireles

 

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Poemas declamados por Rita Alves

SINAL DE BATOM 
(Alice Ruiz)

este sinal de batom
num guardanapo
pode bem ser de um beijo
mancha num trapo
pode querer dizer nada
ou então dizer
que eu te aguardo
a boca num pano mudo
papel que faço
desejo pano de fundo
que eu disfarço
dor que nem bem se escondeu
e ninguém vê
ou só eu
e alguma tarde
você

MINICONTOS
(Andrea Del Fuego)

Há uma coisa que dissolve ossos, e há outra que os constrói. Foi por isso que te dissolvi, pra você voltar. Voltar com fêmur de macho, calcanhar sem a ferida. Foi por isso que te construí, pra você ir embora. Ir com o joelho rompido e o pulso aberto. Há resíduos de operação, o cálcio do vai e vem, e dele fiz tua tíbia, que é minha, minha flauta.

Coloque o nome dele dentro do jiló, em três. Deixe no congelador por sete dias. Agasalhe-se ao dormir, ele vai te esquecer.

Só me encaixo na abertura que a grande morte traz, não choro mais morte pequena.

 

SOU DE POUCOS AMIGOS
(Paula Taitelbaum)

Sou de poucos amigos
Grandes partidas
Partes rompidas
Sou de não falar demais
Despedidas no cais
Sou da cor lilás
Sou feita de névoas
Nódulos e néctares
Sou de aparecer de repente
De repetir sentimentos
Forçar certos momentos
Sou do tamanho de mim
Molécula carmim
Malévola no fim.

PALAVRA DE MULHER
(Rita Alves)

Sou sim muito mulher
Daquelas que passam perfume e batom
Vão direto ao espelho no elevador
Mas pego livro e devoro
Só ouço música boa
Seduzo e deduzo os sinais do tempo
Reinvento
Demoro na escolha da roupa
Mas sei o homem que quero
Lingerie bem pequeno
Salto fino
Esmalte vermelho
Sou dona do meu destino
Escolho o rumo que sigo.

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