26
de
novembro
PRESENÇA DO POETA AGUINALDO DE BASTOS
DIA 22 DE NOVEMBRO - MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA

NEGRA MÃE
(Rita Alves)
- Dá, dá o peito preta.
Engorda este menino branco,
não demora, que a lida te espera.
Anda, preta, peleja!
Amamenta, o menino chora!
- A negra acomoda o menino
ao quente do colo
salta a teta grande
o leite branco jorra!
O menino cola a boquinha no seu peito.
Lá fora o negrinho espia pela janela,
lágrima presa na garganta:
- “mãe, tenho fome também…”
Enquanto estende a mãozinha à palmatória!
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Fernanda de Almeida Prado, Guca Domenico, Aguinaldo de Bastos, Rita Alves e Yolanda de Bastos
Rita Alves e Guca Domenico declamam poemas de Aguinaldo de Bastos
A SENZALA
(declamado por Rita Alves)
Eis o casarão a que chamam senzala.
Janelas estreitas, aspecto sombrio,
quem mora lá dentro por certo não fala…
É quieto e tristonho o infeliz casario.
Paredes escuras, soturno telhado.
São largos e toscos seus feios portais.
Comentam que aquele lugar é habitado
por vultos estranhos que sofrem demais…
Canções langorosas, sentidas palavras,
à noite eles cantam enquanto uma dança
dançada com graça por jovens escravas,
distrai os que vivem sem ter esperança.
A música é triste, infeliz e marcante,
e cantam-na aqui quando dói a saudade
do bem que perderam na pátria distante,
oh Deus! o seu único bem! Liberdade!
O ENGENHO
(declamado por Guca Domenico)
Ao sol do Brasil,
reluzente o semblante,
açoitado por mãos impiedosas,
o negro espera que o sol de algum céu
se levante
e venha aquecer-lhe as mãos frias,
calosas!…
Volteia o engenho
puxando correntes,
moendo… moendo…
Se ali ele fala,
se à boca lhe foge um gemido
às ingetes torturas,
no rosto o chicote lhe estala!…
Volteia o engenho
puxando correntes,
moendo…moendo…
moendo…moendo…
puxando correntes…
moendo…
moendo…
moendo…
moen…do…
MERCADO DE NEGROS
(declamado por Rita Alves e Guca Domenico)
Ninguém saberá o que o negro sentiu
ao ver-se, afinal, nesta terra bendita,
a terra do índio valente, bravio,
que verga a palmeira com força inaudita.
As noites daqui lembram bem sua terra
coberta de beijos, de beijos de prata
que descem, da lua escondida na serra,
aos troncos que dormem no seio da mata.
À pobre criança dormindo na rede,
que a mãe carinhosa cantando cantigas
embala sorrindo, a fitar a parede
batida de barro, trançada de vigas.
O negro se lembra, quando era menino
corria na selva, nadava nos rios
e, ao sol africano de raios a pino,
remava nas ondas de mares bravios.
Gostava do rio, do mar, da jangada.
Sentia-se livre como ave no espaço,
feliz, sem algemas, sem peias, sem nada
que fosse capaz de tolher o seu passo.
Os beijos de prata que vinham da serra
um dia tornaram-se beijos de sangue!
O negro lutou como um tigre, era a guerra,
mas preso e vencido o levaram exangue.
Oh Deus! Melhor fora tivesse morrido
na luta em que todo e seu povo foi morto
mas nunca, jamais ser por homens vencido
e a vis traficantes entregue num porto.





















